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quarta-feira, 10 de março de 2010

Ponderações sobre a incoerência

É ruim ficar analisando questões políticas, porque em geral o que sobra e a sujeira presa no sapato, se é que me entendem.

Mas não posso deixar de analisar o discurso e o método por tráz dele; e refiro-me a ultima e mais recente fala do presidente Lula.

Em uma entrevista, afirmou que: "...Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubano, de prender as pessoas em função da lei de Cuba, assim como quero que respeitem o Brasil...".

Porque chamo de incoerente o discurso?

Em primeiro lugar, se fosse uma questão de respeito ao regime judiciário e leis de um local ou época, seria o caso do próprio presidente e a grande maioria dos que recebem pensão por conta de terem sido "perseguidos" pela ditadura militar devolverem o dinheiro porque afinal de contas, embora errada e íniqua, a ditadura militar tinha um arcabouço de leis para se sustentar. Entretanto, como se tratou de uma ditadura de direita e as "vitimas" eram de esquerda, cabe-lhes todas as honras, pensões vitálicias e rapapés. Mas em Cuba, deve-se observar silêncio obsequioso porque a ditadura militar é de esquerda e as vítimas não sào vítimas, mas habitantes do sistema carcerário de lá.

Que se note: O atual presidente Lula era o antigo metalurgico presidente do sindicado que liderou as famosas greves no ABC que resultaram na sua prisão por cerca de 30 ou 45 dias. A lei na época não previa o direito de fazer greve. Na verdade a lei, na ditadura militar proibia a greve. Logo Lula foi preso com base na lei e justiça então em vigor e nem por isso, deixou de ser considerado prisioneiro politico tanto que recebe pensão vitálicia.


Em segundo lugar, existe a incoerência de decretar respeito a uns e a bradar a ira divina a outros, dependendo quem está levando o chute no traseiro. Por exemplo, quando o ex-presidente de Honduras teve sua deposição decretada com base na constituição de lá, estranha para nós é certo, mas aceita lá; logo ocorreu dentro do regime de justiça hondurenho; o governo brasileiro liderou as críticas, ataques e ações visando o retorno do companheiro deposto. Mas quando se trata de criticar um governo também de companheiros por abuso de direitos humanos, exige-se o respeito a justiça local mesmo que ela seja...inexistente.


Em terceiro lugar, existe o tão prezado sentimento de independência do imperialismo ianque. Como os EUA são críticos ao extremo do governo cubano, deve-se demonstrar independência indo na direção contrária
. Mas não existe o mesmo sentimento de independência ao se alinhar com o regime Cubano, que tem o direito de prender quem quiser ou o Venezuelano, que tem democracia até demais.

Em quarto lugar, existe o caso Batisti, no qual o governo se esforçou além do necessário para manter no país um terrorista condenado na Itália, acusando em primeiro plano , o suposto desrespeito aos direitos humanos por parte da Itália, uma democracia. Nem se deve considerar aqui que o sujeito teve direito a defesa até em cortes internacionais e presos cubanos sequer a julgamento; mas va lá; como o STF entendeu que cabe a extradição do marginal condenado, o executivo pelo andar da carruagem, o manterá no Brasil por questões humanitárias. Já os prisioneiros em Cuba não merecem sequer uma desagravo por questões humanitárias mas levam um pito no lugar além de comparações com marginais condenados no Brasil.

Se o presidente tivesse, sei lá eu, defendido o direito de Cuba de ter o governo que deseja, pouco importando se é uma ditadura ou um democracia, mas que deveria zelar pelos direito humanos libertando os prisioneiros de opinião; e usando seu próprio exemplo como gosta tanto de lembrar, que é criticado todo dia nos jornais mas tem mais de 80% de popularidade, ou seja, opinar não mata ninguem; ele seria aplaudido de pé, por todos e haveria uma espécie de unanimidade, nessa questão, como é do gosto dele.

Mas o que ocorre é que os jornais deram destaque a entrevista dele, os críticos desceram com razão o porrete, os defensores, especialmente na blogosfera militante fazem um silêncio obsequioso e logo surgirão postagens e comentários ora defendendo ora explicitando que houve distorção do realmente dito, etc e tal.

E por ai continuamos, tomando o cuidado de não sujar os sapatos, embora seja impossivel não ficar nauseado com o cheiro.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A questão da "ditabranda" e os chiliques em torno do editorial da FSP

Mino Carta era até poucos dias o queridinho das esquerdas e a "alternativa" a VEJA. No entanto bastou criticar o governo no caso do bandido italiano condenado, Cesar Battisti; para ser bombardeado pela turminha saudosa do conjuntinho boina, barba, estrela vermelha.

Cito o caso do Mino Carta, apenas para demonstrar que para um certo grupo de como chamarei, pensadores, a constância é uma qualidade posta em prática. A constância com que batem indicriminadamente em quem canta fora do tom exigido por essa turma, não importando ser amigo ou inimigo é de deixar o queixo caido.

E ai, na semana anterior ao carnaval, eu um verdadeiro grito de pré-carnaval, o que ocorreu?

A FSP, notória, no ponto de vista dessa troupe, como sendo membro fundador de um tal de pig; fez um editorial sobre a vitória de Hugo Chavez nas suas ultimas eleições, na qual ele levou o, como direi, direito de se reeleger ad eternun no cargo de presidente, como fazia Fidel, sendo que lá a eleição pró-forma era indireta, com ele como candidato único e na Venezuela, supostamente serão eleições majoritarias livres, com supostamente, vários candidatos.

Em dado momento do editorial, houve um brevissimo comentário chamando os sucessivos governos militares que o Brasil sofreu na década de 60 e 70 do século passado como ditabrandas, num trocadilho com o termo ditadura; porque esses governos embora ditaduras na acepção da palavra, permitiam uma certa liberdade politica e acesso ao judiciário.

O artigo em nenhum momento foi uma defesa da ditadura militar, mas uma comparação entre essa e outros governos que apareceram na américa latina, autoritários em seus projetos de poder, encabeçados como origem por Alberto Fujimori no Peru.

O artigo porém, por ter usado o termo "ditabranda" está sendo alvo da furia iracunda da mesma turminha que desceu o porrete no Mino Carta.

O festival de chiliques por conta do termo usado, claro, com o agravante de ser num texto crítico a Chavez, o segundo queridinho desse pessoal (o primeiro é Fidel, obvio); poderia ser hilário se não fosse simplesmente triste pela ausência de inteligência do debate.

Gravataí Merengue, postou que Emir Sader lançou um abaixo assinado contra o jornal. Essa turma gosta de abaixos assinados e quem os apoia, porque acham que assinando recebem uma aura de moralidade superior ao alvo do ataque sem ser preciso demonstrar atráves de raciocinio lógico o erro da tese sob ataque se é que existe erro.

Ora, convenhamos, se o artigo em sí não era uma análise sobre o período militar; mas um artigo sobre o autoritarismo, então a reação quase lisérgica ao texto por conta de uma miserável palavra é rídiculo.

Segundo, o artigo posiciona o termo "branda" na comparação não com outras ditaduras sul-americanas, mas compara a situação da organização política e social então permitida com a criada em outros governos totalitários, isso posto na percepção de que o governante acumulou poder em sí ou no seu cargo em detrimento de outro, baseado no desejo popular e cita a gênese desse tipo de autoritarismo com Fujimori no Perú e cujo exemplar máximo hoje seria Chavez na Venezuela. No entanto, até o presente momento não li artigos rebatendo a análise contida no texto mas uma séria de discursos, digamos assim, contra o termo "ditabranda".

Terceiro, a história prova e para verificar basta apenas saber ler, que a ditadura militar brasileira, matou menos que as ditaduras então vigentes na américa. Se tivesse matado apenas uma pessoa e ainda assim com um tiro acidental, o governo de então ainda seria uma ditadura na acepção da palavra por conta da falta de democracia plena e limitação das liberdades civis. Ora se ninguem tivesse morrido, por esses fatores ainda seria uma ditadura. Dizer que o governo de então embora ditatorial era uma ditabranda porque partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça...não implica em dizer que não houve erros, excessos, crimes, etc, ou relativizar as mortes ocorridas; até porque tanto as mortes, torturas, etc; como o número de ocorrências são uma questão de fato e não de gosto.

Quarto, também é questão de fato e não de gosto, que os que lutaram contra a ditadura militar, tinham por objetivo; a) derrubar o governo; b) instalar um governo do "povo" e c) o poder de decisão seria do grupo a ou b a depender do tipo de socialismo que o grupo a ou b defendia, já que uns até hoje são adeptos das idéias de Kruschev ou Stálin, outros liam com afinco o livrinho do Mao, muitos foram treinados em Cuba. Uma vez perdida a guerra física, passou a ocorrer uma luta pela mente; gerando com ajuda da mídia a idéia dos "lutadores pela liberdade", os bons contra os maus, etc. Esse vitimismo, de alguns até com enorme sentido e o peso da verdade dos fatos, em outros por pura malandragem; criou a fábrica de pensões vitálicias, demonstrando que essa guerra de imagem foi vencida pelos "vencidos" e talvez essa seja a principal mola propulsora dos chiliques em torno de uma palavra.

Quinto, ainda que aceite-se com eu aceito, a questão de que a mera comparação aritmética de vítimas de um regime não permitem absolver ninguem, ela serve para identificar um vício, que na verdade é um método. Um repórter da FSP escreveu contra o editorial por conta do uso dessa palavra e tocou na questão da aritmética dizendo que baseando-se apenas nela, Hitler que matou 6 milhões de judeus foi suave perto dos 20 milhões que morrerão sob as ordens de Stálin. Ocorre que o repórter erra no uso da aritmética e erra ao atacar aquilo que o texto não dizia. Até porque Stálin só matou muitos mais porque ficou mais tempo no poder e Hitler não. Stálin matou os que se opunham ou supostamente se opunham ao seu regime e Hitler queria uma pureza da "raça" com a eliminação de etnias inteiras principalmente judeus. Significa que motivos diferentes tornam um ou outro mais palatável? Significa apenas que o homem, não importa sua ideologia, quando dotado de poder supremo é capaz das piores atrocidades possiveis, justificando-as como admissiveis apenas no caso dele, por se sentir moralmente superior aos outros. Em outras palavras, ainda que Hitler não tivesse matado um único judeu, ainda assim ele seria um monstro sanguinário, um ditador frio, a talvez mais próxima encarnação do demônio que já tenha ocorrido no planeta, e isso porque ele não perseguiu unica e exclusivamente judeus, mas perseguiu quase todos os outros seres humanos do planeta.

Da mesma forma, mesmo que Stálin tivesse matado "apenas" 20.000 e não 20 milhões, isso não o tornaria um ser humano mais sádio que Hitler

Por isso a pura e simples aritmética não é o que está em jogo nesse caso mas o método por trás do discurso.

É inegável que assim como Stáline em relação a Hitler, a ditadura de Fidel matou muitos mais que as ditaduras sul americanas hoje a décadas extintas. Isso não significa que aquelas eram mais virtuosas que essa. Mas é questão de fato novamente e não de gosto que o governo cubano é homicida e é uma ditadura.

É nesse ponto que se registra a questão do método. Os mesmos que estão tendo ataques e desmaios por conta do "malvado" artigo da FSP são os mesmos, exatamente os mesmos, que piscam um dos olhos para a ditadura cubana e fazem que não enxergam, o número de mortos, torturados, exilados, etc, mas enxergam apenas o, pelo menos em tese, avanço da medicina cubana; como se isso de alguma forma atenuasse os erros do regime que são exatamente os mesmos de qualquer outra ditadura de esquerda ou de direita.

Vá você, falar do "milagre brasileiro", de itaipú, ou sei lá do quê e logo um turma vem babando pra cima lembrando da tortura e mortes. Cite o nome Cuba e não conseguirá pronunciar mais nada porque virá um discurso interminavel sobre a beleza da ilha; a altivez do povo cubano frente ao vizinho branco e malvado, os EUA; a medicina que não é nem mais de primeiro mundo mas extraterreste; a paixão do povo pelo Fidel.

Sobre a repressão, tortura e mortes, dirão que boa parte é propaganda americana.

E assim vai seguindo a vida nesse carnaval de 2009 com os enredos oscilando entre os escombros da crise, a chamada marolinha por Lula, e os chiliques dessa turma. E nós atrás desse trio elétrico vestindo a fantasia de palhaços.